Os 30 Textos de Wesir – (re)começos

Em Hotep!

Resolvi (re)começar um projeto iniciado no ano de 2014. Nesse período, eu e outros Shemsu da Ortodoxia Kemética resolvemos desenvolver um projeto que consistia em 30 textos com temas pré-definidos sobre determinadas divindades.

Naturalmente o primeiro Nome de Netjer que escolhi foi meu pai Wesir. Por razões pessoais eu acabei parando no texto 19, porém, site novo, novos conteúdos e planejamentos.

Em razão de todas essas mudanças, durante 2 (duas vezes)  na semana (Segundas e Sábados) estarei postando novamente esse projeto (sob uma ótima mais madura, com novos conteúdos inseridos e afins).

Não tenho a mínima pretensão de me alongar mais, então abaixo segue o primeiro dos textos para Wesir:

Texto 1 – Uma introdução básica sobre a divindade.

De início: Wesir é um rei. O primeiro dos 5 filhos de Geb e Nut, ele é o grande herdeiro do trono. Conhecido como Unnefer (Dotado de Beleza), Ele é um grande senhor da prosperidade que faz o seu máximo para trazer evolução onde quer que chegue, tendo como principais instrumentos o amor e a sapiência.

Wesir é conhecido em demasia como o Grande Juiz, mas não é tão sabido que Sua atuação vai muito além de ser o grande regente do Duat. Inicialmente Ele é o Senhor da fertilidade e da colheita, deixando claro os títulos de Senhor da Vida e Regente do Mundo dos mortos. Wesir promove a morte necessária, Ele traz, para aqueles que O procuram, a possibilidade do aprendizado e da evolução em todos os sentidos da vida, porém nem sempre é de uma forma tranquila. As mudanças que Ele promove são muito semelhantes a um de Seus mitos: Ele precisou morrer para despertar todas as suas capacidades e assim se tornar o Grande Juiz. Wesir nunca ressuscitou. Wesir é um Deus Morto.

Unnefer é sereno, tranquilo, resiliente, dotado de temperança e muito preocupado com os seus. Penso nele como um pai muito zeloso que, às vezes, teme que seus filhos saiam de seu campo de visão e acabem se machucando no processo, mas Ele tem total consciência de que os tombos são inevitáveis para o aprendizado e a evolução ao longo da vida. Wesir é marido de Aset, Senhora de tantos títulos e nomes, que junto a Wesir trouxeram grande prosperidade para Kemet (Egito) e uma das responsáveis, ao lado de Nebt-Het, por achar os pedaços de Seu marido no Nilo, permitindo assim que ele se tornasse o Juiz de Amenti. Além disso, ele é pai de Heru-sa-Aset, seu herdeiro do trono das Duas Terras, e também de Yinepu, Senhor do embalsamento, que é filho de sua relação de uma única noite com sua irmã Nebthet, que através de certos truques conseguiu seduzir Wesir de forma ilusória.

Wesir traz a oportunidade do aprendizado nas quedas e falhas, pois Ele ensina como poucos o verdadeiro valor da nobreza, amor e bondade. Porém que ninguém seja tolo de se enganar e se permitir tentar engar Wesir, às vezes precisamos de um único grão de arroz para tirar a balança do equilíbrio, e não é sábio fazê-lo com um dos protetores diretos de Ma’at.

Com esses 30 textos espero poder passar um pouco da minha experiência pessoal com meu Pai e tantas outras informações históricas Seu culto, para que assim outras pessoas se apaixonem por esse Nome Divino assim como eu me permiti apaixonar. Dua Wesir-Unnefer!

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Vivendo como Shemsu.

“Nuk per Wesir, ami-ab,
per-ab ami-kshat. Anksh-a em t’ett’a-a.”
¹

19 de Dezembro de 2012. Essa data definitivamente mudou minha vida. Passar pelo RPD² foi o divisor de águas em minha vida religiosa e espiritual, porém as perguntas surgiram: “E agora? Confirmo os votos e me torno Shemsu?”

Bem, na época definitivamente faltava maturidade na minha construção enquanto pessoa, porém mesmo assim optem em falar “sim”, e bem, foi a melhor escolha que poderia ter feito.

No dia 26 de Dezembro do mesmo ano passei pela minha nomeação, recebendo assim o nome de Pasemwesir³. O nome me intrigou por ser extremamente amplo. Tão sucinto, porém tão profundo ao mesmo tempo. Foi naquele dado momento que parei para refletir a importância dos votos que assumi.

Ao longo de minha trajetória ouvi muitas perguntas do tipo “O que é ser um Shemsu para você?”, e, bem, poderia dissertar horas e horas sobre esse significado. Essencialmente, para mim, ser um Shemsu é primariamente assumir votos com sua família divina. Veja bem, isso não significa, em hipótese alguma, que uma pessoa tenha que abandonar quaisquer outros caminhos espirituais que ela segue, mas que , em função de um compromisso de voto, deve sim priorizar o culto de sua linhagem divina.

Mas ser um Shemsu não se resume apenas às diversas experiências vivenciadas ao lado de sua família divina. Não, definitivamente não. Sinto que dia após dia tenho mais forças para proteger Ma’at e fazer valer o significado do nome dado por meu Pai. Tenho para mim que os votos assumidos não foram apenas para minha linhagem divina não, mas foi para com a comunidade, com minha Nisut e principalmente com Ma’at.

Ser um Shemsu é identificar e defender Ma’at em todas as situações através da ótica de sua linhagem divina, é entender e respeitar cada diferença e se permitir desconstruir eternamente sobre assumir votos. É buscar ter certeza e firmeza de que cada ato é dado com clareza e sinceridade, é nadar em braços disciplinadores sim, mas dotados de eterno amor e compreensão. É identificar na natureza e no cotidiano cada manifestação do que é mais antigo do que o Tempo, Não é sempre fácil. Existem crises, existem dificuldades e a reflexão é contínua, longe de ser linear.

Tal como a Ordem não existe sem o Caos, a mutabilidade de nossas transformações são eternas, porém o resultado de nossas próprias construções acabam sendo concretos.

Votos são compromissos e em diversos momentos parecem ser inflexíveis, porém definitivamente estão longe de ser restritivos, principalmente quando feitos de coração puro, aberto e bem resolvido.

Existe amplitude nas especificidades. Está aí para quem quiser buscar.

Senebty,

Pasemwesir.

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“The Obsequies of an Egyptian Cat”, por John R. Weguelin (1886).

¹ – “Eu surjo diante de Wesir com o coração puro, dentro de um corpo puro. Vivo através de minhas palavras.”

² – Rite of Parentt Divination – Rito que consiste, através de divinações oraculares, a identificação da linhagem divina de um Remetj.

³ – Em português “A Ajuda de Wesir”.

Quando foi que me perdi?

“Iu Ma’at er iyêt er setes,
Isfet djarty er ruty”¹ 

O mundo gira independente de nossa vontade. O tempo passa, as fases da lua mudam e a vida continua a se desenvolver. As pessoas continuam a ter suas vidas, suas rotinas, vontades, desejos, felicidades, etc.

Em um dado momento da vida, eu fraquejei. As coisas de repente não estavam mais sob meu controle, o mundo nunca pareceu tão cinza e desafortunado quanto naquele momento. O Wep-Ronpet havia passado, e com ele, uma mensagem linda anunciando uma nova aurora sendo cantada pelos quatro cantos. Eu não estava vivenciando essa nova aurora, eu não sentia mais os Nomes de Netjer tão próximos assim. Quando foi que eu me perdi?

A cobrança da sociedade contemporânea é cruel. Ela nos força a colocar em primeiro plano certas estruturas construídas por conceitos capitalistas, retrógrados e efêmeros. A crítica pessoal acaba fugindo do patamar da realidade e passamos a necessitar de uma aceitação social que é totalmente irrelevante. Através da crise do país, do nada, me vi sem perspectivas profissionais, acadêmicas, espirituais, mas principalmente, pessoais. Eu não via mais rumo na minha própria existência e repentinamente me vi descrente nas forças divinas. Deixei de acreditar nos Deuses, e me julguei por isso.

Desmontei meus altares, me entreguei totalmente à solidão da minha própria sombra, da minha própria depressão. Me perguntava o porquê dos Deuses terem desaparecido da minha vida, o porquê do meu abandono. Foi então que realizei: Eu me abandonei.

Eu me abandonei ao colocar as prioridades alheias acima das minhas, eu me abandonei ao sacrificar toda minha produtividade por crises de ansiedade, eu me abandonei por não querer mais enxergar os Deuses, os meus Akhu, a minha própria fé. Eu me abandonei por desistir de lutar por mim. Me entreguei à uma falsa erudição e esqueci de colocar em prática o cerne da minha própria fé: Ma’at.

Não é fácil admitir fraquezas, não é fácil expor-se à comentários maldosos, mas o mais difícil é se reconstruir, se entregar ao profundo caos para renascer tal como o Benu primordial.

Durante simples caminhadas pela rua pude ver, em cada detalhe, manifestações divinas. Em um dado momento sentei na praça em frente à minha casa e observei simplesmente o tempo passar. Me peguei sorrindo de satisfação ao notar: Meus Deuses não apenas estavam ali presentes, mas estavam especificamente comigo. Há tempos, talvez anos, não passei por um Senut tão precioso, tão libertador.

Voltei às origens: Altar simples, sem ícones. Voltei aos poucos, me reconectei com a essência de Netjer onde pude relembrar o valor de algo esquecido na nossa sociedade: Empatia. Eu mereço o que há de melhor no mundo, eu sou meu maior tesouro, preciso estar pleno não apenas para mim, mas para meus Deuses. E assim foi.

Ma’at voltou a abrir suas imensas asas, tive forças para destroçar meus próprios isfets novamente e definir novas diretrizes do que realmente quero. Não preciso de números, não preciso de palco, não preciso de plateia. Comunidade, para mim, é diferente de família. E a família que possuir empatia realmente merece minha atenção. Reaprendi a vivenciar os Deuses em cada segundo e momento da minha vida, não apenas breves espaços perante o altar. Voltei a me conectar com as energias do mundo e do Meu mundo.

Me vi envolto no abraço caloroso de Wesir, me vi protegido pela imponência de Sekhmet e me vi guiado pela sinestesia de Nit. Eles estiveram comigo durante todo o processo, respeitando meu momento de transformação, presenciando mais uma das minhas tantas mortes. O antigo dando espaço para o novo. A troca de plumas do Velho Benu.

Sou grato por todas as minhas cicatrizes. Os monstros são reais, mas sempre temos a opção de comungar com eles ou nos entregar. Netjer entende e respeita o tempo de cada um, está sempre lá para quem quiser enxergar.

Sou grato aos meus Akhu por me fazerem lembrar sempre das minhas origens, de quem eu sou. Sou grato à meu pai Wesir, às minhas bem-amadas Sekhmet e Nit. Sou grato à Nebthet que adotei como a mãe que não está em minha linhagem. Sou grato à minha Nisut que tão afetivamente mostra cada vez mais o porquê de ser uma governante que eu sigo. Sou grato aos meus amigos verdadeiros que me apoiaram e respeitaram durante todo o meu processo de reconstrução.

Senebty,
Pasemwesir
Shemsu e Liaison brasileiro da House of Netjer.

Mery Wesir
Sa Sekhmet-Hethert her Nit-Nebthet-Seshat.

julgamento

¹ – “Ma’at will return to Her throne,
for isfet is driven away”

(extraído dos antigos textos de sarcófago, The Ancient Prayerbook, Tamara Siuda/Nisut Hekatawy I. Todos os direitos reservados)